
Eu comecei a dançar ballet aos 29 anos. E não sou a única.
Há um tempo, um amigo, ao me ver 100% focada em trabalho e estressada com as preocupações sobre a minha carreira, me fez uma provocação:
- Qual o seu hobby?
Respondi sabia e rapidamente:
- Ler, ver filmes e séries…
E ele:
- Hobby é alguma coisa que exige dedicação, que faz você aprender algo, que exige que você se supere.
Fiquei alguns meses com cara de “darh” e acabei repensando muitas das minhas escolhas.
Vim a trabalho para São Paulo em 2006, deixei amigos e famílias em BH. Focada na carreira, pensando no que eu seria quando crescesse. De lá para cá a novela não mudou. As viagens para casa mais raras, os amigos mais instantâneos, acabei virando só trabalho.
Um dia a conta veio, bem na época em que o meu amigo me tirou da minha zona de conforto com uma pergunta simples. Eu me tornei só trabalho e se o trabalho não me dava tudo o que eu queria, a frustração, a inquietação vinha em uma quantidade exponencial que nenhum CNPJ poderia suprir.
Estava na hora de aprender a amar outra coisa.
Não vou negar, Black Swan estava sendo lançado e eu me apaixonei pela dedicação e os desafios que aquela arte impunha à personagem de Natalie Portman. O ballet, arte que eu reneguei quando era criança, começou a brotar em mim e quando me vi estava googando escolas de ballet adulto em SP.
Você ficaria chocado com a quantidade de resultados, ballet já não era mais uma coisa de criança meiga, era também para adultos persistentes.
Lá fui eu, com minha roupa de corrida e sem sapatilhas, descer as escadas de, hoje eu sei, uma das melhores escolas de ballet de SP. Desajeitada, preguiçosa, querendo músculos e elasticidade.
Jurava que não usaria rosa, jurava que não faria coque, jurava que não seria nada além de um passatempo. Mas eu me apaixonei.
Os passos de dança tomaram conta de mim. Ballet não é para qualquer um, ainda menos para qualquer adulto. Tudo dói. O cansaço mata.
Subir em uma sapatilha de ponta aos 29 anos é como mudar a maneira como você pisa no mundo. A postura é outra, a cabeça é outra.
Minha professora costuma dizer que a bailarina precisa de um “que” de arrogância, porque a arte precisa disto. Você sabe que se não confiar em você vai cair, se olhar para o chão, vai cair. Sente uma dor inexprímivel e não pode compartilhar. A beleza está na leveza, na suavidade.
Como pedir isto para quem se degladeia no trabalho para ser reconhecido, para entregar resultado? Como pedir isto para quem paga as suas contas, sabe quanto custa cada centavo pago na mensalidade? Como pedir isto para quem corre de um lado para o outro para se sustentar e morre de medo de não alcançar os seus objetivos porque eles significam a sua própria vida?
Ela diz que uma bailarina tem o mundo nos braços e para segurá-lo precisa se conhecer, conhecer seu corpo, suas emoções. Precisa confiar em si mesma mais que tudo, precisa ter disciplina e humildade.
Eu me transformei. Black swan, white swan, não sei. Sei que hoje fujo do escritório, uso gel nos cabelos todos os dias, compro mais collants do que roupas, pulo a manicure para subir na ponta, durmo cedo e passo o sabado dançando. Me arrependo a cada aula perdida.
Tudo por fazer uma sequência perfeita. Por um giro.
Os músculos vieram, mas eles não são mais para o verão, são para a pirueta. Para o sonho do fouette, pela beleza dos passos.
E, embora, eu fuja do trabalho vez ou outra para não perder uma aula, não tem preço a qualidade de vida que ganhei ao conseguir mais que um hobby, mas uma paixão. E, no longo prazo, tenho certeza que meu chefe e meus resultados mostrarão o benefício disto.
Mais que uma ode ao ballet, que não pude evitar, a razão deste texto é fazer a mesma provocação que um dia recebi. A vida não é só trabalho, não é descontar a tensão no happy hour ou no cartão de crédito. O que você está fazendo para que a sua vida seja melhor?
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